A adoção foi para mim uma decisão muito acertada, desde adolescente que sonhava em adotar uma criança, mas fui adiando este sonho pelas dificuldades que imaginava encontrar num processo tão intenso, demorado e exigente emocionalmente.
Um dia aleatório, como tantos outros, senti um impulso de partilhar esse objetivo de vida com o meu companheiro da altura. Nesse momento, decidimos marcar um atendimento na Segurança Social para receber informações mais concretas sobre como iniciar o processo. Fui informada de toda a documentação necessária e obrigatória e, já em reunião com as técnicas, foi-me explicado em detalhe todo o percurso: candidatura, avaliação da candidatura, formações obrigatórias, análise e decisão final. Também me explicaram de forma muito realista, sem florear, os prazos médios, sempre sujeitos a alterações, para ser mãe de uma criança.
Percebi, desde logo, que tinha de ser forte. Também me foi transmitido que as crianças em situação de adotabilidade podem ter histórias difíceis e que, por isso, a seleção das famílias que adotam é criteriosa. Senti medo de não estar à altura, mas nem um segundo hesitei em continuar.
Enquanto casal, iniciámos juntos o processo e eu estava determinada a prosseguir, acontecesse o que acontecesse. “Nunca desistas dos teus sonhos“, era a frase que repetia baixinho para mim mesma, e foi esta frase que me fez seguir em frente, até hoje.
Numa determinada altura, e já com a candidatura aceite, o meu relacionamento terminou. Senti-me perdida, mas desistir nunca foi opção. Dirigi-me à Segurança Social, com uma coragem da qual ainda hoje me orgulho, para saber como decorreria agora o processo perante a mudança na minha situação familiar.
Fala-se pouco em adoção em Portugal e ainda menos sobre adoção singular. O desconhecimento gera receios e, talvez, estigma em relação à monoparentalidade de uma forma geral. No meu caso, não houve atrasos nem alterações no tempo de espera.
As fases do processo de adoção são exigentes: avaliações psicológicas, cursos de parentalidade, apresentação de documentos sobre a situação socioeconómica, registo criminal, condições de habitação; tudo isto contribui, evidentemente, para a morosidade do processo.
Eu tinha habitação própria, emprego estável e, embora não fosse rica, sabia que tinha recursos para oferecer a uma criança o que todas merecem: uma vida digna e, acima de tudo, amor. Este é o verdadeiro “requisito de ouro” para uma vinculação afetiva forte e segura.
Depois veio a espera. Quando recebi a notícia de que a minha candidatura de adoção singular tinha sido aceite, fiquei radiante, sem palavras. Segue-se a ansiedade pelo telefonema com a proposta, sabendo que o meu filho seria escolhido com o maior cuidado e rigor, numa correspondência cuidada entre o meu perfil e o da criança.
Quando finalmente recebi a chamada, tive alguns dias para decidir. A resposta foi positiva. As técnicas explicaram-me que teria de conhecer a criança na instituição e que, consoante a nossa interação, seria decidido o momento da sua vinda para casa. Após três dias de visita, o meu filho já chorava quando eu saía. Foi tudo muito bem preparado pelas profissionais da instituição, a quem só tenho profundo agradecimento. Pouco depois, o meu filho veio viver comigo, iniciando-se o processo de pré-adoção, que durou cerca de 6 meses. Foram meses desafiadores, mas muito bonitos. Por fim, fui a tribunal, com testemunhas, e o veredito foi favorável: a adoção plena foi concedida.
Esperei, entre o início do processo e o momento em que o meu filho chegou a nossa casa, 6 anos, nem mais nem menos.
Não vou falar dele como devem imaginar. Só posso dizer que é uma criança feliz e eu sou feliz por ser sua mãe.
Que este testemunho sirva para que não desistam de adotar e de ser mães a solo.
A minha vida mudou para sempre, continuo a viajar, a passear, a ser eu, mas agora faço tudo acompanhada e a razão da minha existência passou a ter o nome de uma criança.



